Recibos Verdes ou Empresa em 2026: A Partir de Que Faturação Compensa Passar a Lda
É uma das perguntas mais frequentes que recebemos no Grupo Your. O freelancer começa a faturar bem, vê metade do rendimento ir para impostos e Segurança Social, e questiona-se: "não devia eu abrir uma empresa?". A resposta curta é "depende". A resposta útil envolve números concretos, e é isso que vamos dar neste artigo.
O ponto de partida: como funcionam os recibos verdes em 2026
Quem trabalha por conta própria através de recibos verdes está, na linguagem fiscal, na Categoria B do IRS. A maioria dos profissionais opta pelo regime simplificado, que aplica um coeficiente sobre o valor faturado para determinar o rendimento tributável.
Para a maior parte das atividades de prestação de serviços, o coeficiente é de 0,75, ou seja, 75% do que faturas conta como rendimento tributável e os restantes 25% presumem-se gastos. Há atividades específicas com coeficientes diferentes (alojamento local a 0,35, atividades hoteleiras com regras próprias, etc.), mas vamos focar-nos no caso mais comum.
Sobre esse rendimento tributável aplicam-se as taxas progressivas do IRS, que podem chegar aos 48% no escalão mais alto. A isto somam-se as contribuições para a Segurança Social, que rondam os 21,4% sobre uma base de incidência calculada trimestralmente.
Quanto está mesmo a pagar um trabalhador independente
Vamos ver com números reais. Um profissional que fatura 40.000 euros por ano em prestação de serviços, sem dependentes e sem grandes deduções, paga aproximadamente:
| Componente | Valor anual |
|---|---|
| IRS (regime simplificado, coef. 0,75) | ~5.400 € |
| Segurança Social | ~6.400 € |
| Total de carga fiscal | ~11.800 € |
| Líquido disponível | ~28.200 € |
Carga efetiva: cerca de 29,5% do faturado. Quando a faturação sobe para 60.000 ou 80.000 euros, esta percentagem dispara, porque o IRS entra em escalões superiores.
O que muda quando se abre uma empresa
Numa Sociedade Unipessoal por Quotas (Unipessoal Lda) ou numa Sociedade por Quotas (Lda), a lógica é completamente diferente:
A taxa de IRC para PME em 2026 é de 16% nos primeiros 50.000 euros de matéria coletável e 19% acima desse valor (descida que entrou em vigor este ano). Isto faz uma enorme diferença.
Simulação: 4 cenários reais
Vamos a quatro casos concretos, todos com o mesmo perfil (profissional solteiro, sem filhos, atividade de prestação de serviços com coeficiente 0,75 no regime simplificado).
Cenário 1: Faturação de 25.000 €/ano
* Recibos verdes: carga fiscal total de ~6.500 €, líquido de ~18.500 €. * Unipessoal Lda: depois de salário mínimo do gerente, IRC, contabilidade e encargos, o líquido fica em torno de ~17.800 €.
Veredito: a esta faturação, recibos verdes ainda compensam. A empresa só ganha em situações específicas (querer comprar viatura, ter despesas significativas, etc.).
Cenário 2: Faturação de 40.000 €/ano
* Recibos verdes: líquido de ~28.200 €. * Unipessoal Lda: líquido de ~28.500 a 29.500 € (dependendo da estratégia salário/dividendos).
Veredito: zona cinzenta. Os números são parecidos, mas a empresa começa a ganhar pelos benefícios não financeiros (imagem profissional, possibilidade de contratar, separação patrimonial).
Cenário 3: Faturação de 60.000 €/ano
* Recibos verdes: líquido de ~38.000 €. * Unipessoal Lda: líquido de ~42.000 a 44.000 € com uma estratégia bem desenhada.
Veredito: começa a compensar de forma clara. Diferença anual de 4.000 a 6.000 euros, suficiente para pagar todos os custos da empresa e ainda sobrar.
Cenário 4: Faturação de 100.000 €/ano
* Recibos verdes: líquido de ~58.000 € (já com penalização do coeficiente que sobe para 100% acima dos 200.000 €, mas ainda em zona penalizada se ficar muitos anos). * Unipessoal Lda: líquido de ~72.000 a 76.000 € com gestão fiscal otimizada.
Veredito: compensa claramente. Diferença de 14.000 a 18.000 euros por ano. Manter os recibos verdes a este nível é deitar dinheiro fora.
O ponto de viragem: onde compensa mesmo
Pela nossa experiência com mais de 4.000 empresas no Grupo Your, e com as regras de 2026, o ponto de viragem situa-se entre 50.000 e 65.000 euros de faturação anual, dependendo de:
* Tipo de atividade e coeficiente aplicável. * Despesas reais que o profissional tem (rendas de espaço, equipamento, deslocações, formação). * Necessidade de subcontratar ou contratar pessoas. * Plano para os próximos 3 a 5 anos (vai crescer? estagnar?).
Se faturas acima de 65.000 € e continuas em recibos verdes, é quase certo que estás a pagar mais imposto do que precisarias.
Os custos invisíveis que muitos esquecem
Quando se compara, é fácil olhar só para o IRS e o IRC. Mas a empresa tem custos fixos que precisam de entrar na conta:
Numa unipessoal de prestação de serviços típica, conte com 2.500 a 4.500 euros/ano em custos fixos da empresa, fora impostos sobre lucro.
Quando NÃO compensa abrir empresa (mesmo a faturar bem)
Há situações em que a empresa, mesmo numericamente vantajosa, é má ideia:
* Atividade temporária ou de transição (vai abrir e fechar em 2 anos). * Faturação muito instável, com meses a zero. * Não tem disciplina financeira para separar o "dinheiro da empresa" do "dinheiro pessoal". * Não quer lidar com a complexidade (fechos de contas, IES, atas, decisões formais).
A empresa exige uma postura diferente. Não é só uma forma jurídica, é uma mudança de mentalidade.
Como tomar a decisão de forma certa
Antes de abrir empresa, recomendamos três passos:
Conclusão: a regra prática
Se faturas até 40.000 euros: provavelmente recibos verdes ainda fazem sentido.
Se faturas entre 40.000 e 65.000 euros: zona de transição. Avalia caso a caso.
Se faturas acima de 65.000 euros e a tendência é continuar ou crescer: é hora de pôr a hipótese da empresa em cima da mesa, a sério.
Se faturas acima de 100.000 euros: estás quase de certeza a pagar imposto a mais. Trata disto este ano.
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